10. CULTURA 18.9.13

1. MUSEUS - SIM,  MESMO UM VAN GOGH
2. CINEMA - HOLLYWOOD CONTRA O BOTOX
3. LIVROS - ABAIXO O SILNCIO
4. EM CARTAZ- CINEMA - MITOS SOBRE RODAS
5. EM CARTAZ  LIVROS - AO ENTRE AMIGOS
6. EM CARTAZ  DOCUMENTRIO - AS GUERRAS DE XICO STOCKINGER
7. EM CARTAZ  MSICA - PARA SEMPRE GUIOMAR
8. EM CARTAZ  LIVROS 2 - SE BEBER, NO PARE
9. EM CARTAZ  AGENDA - ARTHUR LESCHER/TRIBOS/FESTIVAL PAULISTA DE CIRCO
10. ARTES VISUAIS - ARTE PARA TODOS
11. ARTES VISUAIS  ROTEIROS - BEUYS E NIEMEYER EM DILOGO ESPACIAL

1. MUSEUS - SIM,  MESMO UM VAN GOGH
Museu na Holanda descobre tela desconhecida do mestre flamenco. Saiba como  feita a autenticao de uma obra como esta
Mnica Tarantino

A autenticao de uma obra de arte costuma ser um longo processo de muitos questionamentos. Na semana passada, aps preencher todos os quesitos exigidos, a pintura Pr do Sol em Montmajour foi certificada pelos especialistas do Museu Van Gogh como uma legtima tela do mestre holands. A certeza veio de um rigoroso trabalho de apurao realizado por dois pesquisadores da instituio, Louis van Tilborgh e Teio Meedendor. Eles avaliaram o material (tinta, tela, madeira), o estilo e as pinceladas e compararam seus achados com outras pinturas do artista. Uma descoberta dessa magnitude nunca aconteceu na histria deste museu.  uma raridade que se possa acrescentar uma nova pintura  obra de Vincent van Gogh, disse Axel Rger, diretor da instituio. A tela ser exibida ao pblico a partir de 24 de setembro.

Em busca de evidncias, os pesquisadores encontraram at o local retratado  uma paisagem perto da colina Montmajour, na Frana, onde h a runa de uma abadia com o mesmo nome. A certeza da origem do quadro veio tambm de duas cartas ao irmo de Van Gogh, Theo. Em uma delas, Vincent dizia ao irmo que havia pintado uma tela no dia anterior, 4 de julho de 1888. No pr do sol eu estava em uma vrzea pedregosa muito pequena, onde carvalhos retorcidos cresciam, ao fundo havia uma runa no morro e campos de trigo no vale, escreveu Van Gogh. Como o autor no ficou satisfeito com o resultado, mandou a pintura ao irmo, que a vendeu em 1901. Depois disso, a obra passou anos desaparecida at ser encontrada em 1970, na propriedade do empresrio noruegus Christian Nicolai Mustad. Ela  importante porque pertence a um grupo excepcional de quadros nos quais o pintor holands faz experimentaes.  um trabalho de transio. A partir dele Van Gogh sente a necessidade de usar mais e mais camadas, explica Van Tilborgh.

O valor da tela ainda ser estimado, mas deve alcanar dezenas de milhes de dlares. 
 No foi a primeira vez que essa pintura foi estudada. Em 1991, ela foi submetida ao Museu Van Gogh, que na poca no a legitimou. Aps esse tempo, parece ter sido negligenciada, disse  ISTO Gary Schwartz, historiador de arte em Amsterd. Ele  especialista em Rembrandt, artista sobre o qual h muito debate em torno da autoria de obras. So processos longos e cheios de dvidas, que levam tempo para serem concludos. Mas iniciativas como as do governo holands, como o Projeto de Pesquisa Rembrandt, so positivas, diz o holands Pieter Tjabbes, historiador e especialista em arte flamenca do sculo XVII que est  frente da empresa Art Unlimited, em So Paulo. O projeto reverteu algumas das negativas a trabalhos de Rembrandt e desautorizou obras como O Homem com Capacete Dourado. Na opinio de Schwartz, o reconhecimento de Pr do Sol em Montmajour poder incentivar proprietrios de pinturas refutadas no passado a tentar novamente a autenticao. Com o avano do conhecimento, esses processos no precisam mais ser irreversveis, diz ele.  


2. CINEMA - HOLLYWOOD CONTRA O BOTOX
Em defesa do envelhecimento natural, atrizes como Teri Hatcher encabeam um movimento que condena o uso abusivo de procedimentos estticos e provam que no perderam mercado de trabalho
Elaine Guerini

Movida a magia e iluso, Hollywood est sendo abalada em um de seus principais pilares: o culto da beleza e da eterna juventude. Contra os procedimentos estticos que amenizam rugas e marcas de expresso, atrizes na faixa dos 50 anos, como Jodie Foster e Julianne Moore, preferem no esconder os sinais do envelhecimento que, no caso de grandes intrpretes como elas, terminam por ser o seu maior capital. A mais nova no clube das que passam longe de uma clnica de preenchimentos e botox  Teri Hatcher, a Susan do seriado Desperate Housewives. Aos 48 anos, Teri decidiu divulgar um ensaio fotogrfico em que se exibe sem maquiagem, fazendo caretas. A sequncia de fotos mostrando-a enrolada numa toalha foi divulgada em sua pgina no Facebook para provar que ela abriu mo do uso da toxina botulnica. Adepta do procedimento no passado, Teri acha hoje ridculo aparentar ter menos idade:  preciso aprender a envelhecer com elegncia e dignidade, disse  Isto.

EM FORMA - Para Teri, o talento  que manda: "Destruir o rosto no garante papel algum"

Em cartaz com a animao Avies, na qual dubla o personagem de uma empilhadeira, a atriz afirma que a deciso de parecer mais natural no diminuiu os convites de trabalho. O recado, obviamente, no se dirige apenas s suas colegas de profisso. Quero ser essa voz, abrindo o olho das mulheres para que se sintam bem do jeito que so. Rugas no impedem ningum de ser bonito, afirma. O pensamento coloca em xeque a ideologia dos estdios, que sempre incentivaram o contrrio. Em sua poca de ouro, quando as tcnicas de embelezamento no eram to difundidas e avanadas, Hollywood reuniu os melhores maquiadores, fotgrafos e iluminadores para garantir que estrelas como Marilyn Monroe ou Greta Garbo parecessem deusas. Na era das celebridades no basta ser astro apenas nas telas:  preciso exibir a mesma pele de porcelana na vida real, o que torna o cotidiano das atrizes um suplcio. Disposta a lutar contra a ditadura da beleza, Teri dispensa at os comerciais de cosmticos: No sou contra a mulher querer ficar bonita. S no acredito que um simples produto far milagre algum.


3. LIVROS - ABAIXO O SILNCIO
Cartas inditas em que Alceu Amoroso Lima critica o governo militar e denuncia a falta de coragem e lucidez da imprensa, da academia, da sociedade e at da Igreja durante o AI-5 so reunidas em livro
Ana Weiss

Eram passadas duas semanas da sexta-feira 13 em que o Pas mergulhou na mais escura de suas passagens polticas. O Ano-Novo em 1969 era de um Brasil tambm novo, mas pior, e ainda no inteiramente consciente do aprisionamento poltico e social instaurado pelo Ato Institucional n 5, decreto que dava aos generais-presidentes a partir daquele dezembro um poder s conhecido, at ento, pelo absolutismo. Mas era Ano-Novo e o professor Alceu Amoroso Lima comeava o feriado de Confraternizao Universal, como comeava quase todos os dias. Depois de ler os jornais, sentava-se diante de uma folha em branco e escrevia  mo cartas para a filha Lia, que havia 18 anos vivia enclausurada no Mosteiro da Paz em So Paulo, onde recebia a correspondncia em seu nome de abadessa, Maria Teresa. 

As cartas, em letra quase indecifrvel, foram guardadas por ela at o fim da vida, em 2011. Esse lote de escritos crticos, polticos, por vezes raivosos e decepcionados de seu pai ainda pde ser revisto por ela, que, praticamente cega, ajudou o irmo, Alceu Amoroso Lima Filho, a decifrar a difcil caligrafia do pai nas missivas que cobrem quase diariamente os 14 meses que sucederam o AI-5. Esse material, testemunho ntimo e livre de censura de um dos maiores intelectuais brasileiros ligados  Igreja Catlica, chega s livrarias na obra Dirio de um Ano de Trevas, com a organizao assinada por Alceu Amoroso Lima Filho e por Frei Betto e edio do Instituto Moreira Salles.

A censura , a propsito, um dos temas mais recorrentes na correspondncia de Amoroso Lima. Colaborador de jornais sob o pseudnimo de Tristo de Athayde, ele comunicava  filha no s as arbitrariedades militares contra os rgos de imprensa, mas tambm atitudes menos lembradas pela histria do jornalismo, como a autocensura e o colaboracionismo. Em carta de 28 de maro, ao comentar a priso do metalrgico Tibor Sulik, fundador da Juventude Operria Catlica, ele escreveu que o Jornal do Brasil, no qual publicava com frequncia, no dava esse tipo de notcia. O J do B no as publica por ser mais covarde e cmplice dos milicos (que o Correio da Manh), registrou. Em janeiro, quando do anncio do abrandamento da interveno nos dirios: ...pobres majores encarregados da censura nos jornais, que estavam em palpos de aranha, pois j no sabiam o que censurar, pois no havia inimigo algum  vista!

BUSCA - Frei Betto, organizador do volume ao lado de Alceu Amoroso Lima Filho, passou um ano trabalhando no texto. Acima, capa do livro, lanado pelo Instituto Moreira Salles

Para transformar o lote de missivas em livro foi importante o trabalho de garimpagem e identificao de pessoas e instituies, muitas vezes referidas em siglas no original.

O levantamento rendeu material para a redao de quase mil notas de rodap, que, sozinhas, segurariam um volume sobre o perodo. Foi uma tarefa imensa, diz Frei Betto, que, alm da profunda conexo com as arbitrariedades da ditadura e da resistncia catlica contra ela  da qual Alceu Amoroso Lima foi uma das vozes mais potentes , foi amigo e aluno do pai de Maria Teresa e, por isso, considerou a misso difcil e emocionante. O doutor Alceu foi meu professor na faculdade de jornalismo, nos anos 1960. Quando deixei a priso, em 1973, ele prefaciou meu livro (Cartas da Priso, escrito no mesmo ano), algo muito importante para mim, disse  ISTO.

As prises sob o decreto ocupam longos pargrafos da correspondncia. A indignao, entretanto, no se dirige somente aos algozes, tratados com ironia (o Dops, a nica autoridade efetiva que nos governa), mas tambm aos cmplices, muitas vezes assim considerados por omisso. Como quando fala de Marlia Masset, uma conhecida da famlia que se dizia envergonhada pelo filho preso, acusado de ter abrigado reunies com Marighella em sua casa.

O Amrico (Lacombe, juiz federal e historiador), seu marido, deve ensinar a ela que todos os homens pblicos do Brasil foram revolucionrios e conspiradores ou, pelo menos, herdeiros e beneficirios deles.

Precisei muito da famlia Amoroso Lima para localizar esses nomes, conta Frei Betto, que tambm se valeu do Google para a redao das notas e reescritura do texto. Posso dizer que fiz um trabalho de restaurao. Isso porque foi necessrio mexer na redao, atualizar a ortografia, ajeitar a pontuao  que, afinal, servia a uma comunicao coloquial entre pai e filha. E fazer tudo isso preservando a integridade do texto e a inteno do autor, diz o organizador.

Alm das muitas histrias de bastidores  como a aproximao dos militares com a Academia Brasileira de Letras e as politicagens nas disputas pelas cadeiras imortalizadoras, das quais o autor ocupara a de nmero 40 , um dos pontos mais interessantes do livro  a mudana de tom com o passar dos meses. Em janeiro de 1969, ele descreve os militares por trs do AI-5 como patetas que acreditam, talvez com sinceridade, que esto realmente conduzindo os acontecimentos, quando esto sendo apenas conduzidos por eles. Pouco mais de um ano depois, escreve para a filha sobre o ento governante Emlio Garrastazu Mdici, chamando-o de lobo em pele de cordeiro a tirar a mscara. O Mdici chegou de mansinho, com luva de pelica (...) agora  que se est revelando um caudilho gacho da pior espcie. Sem dvida que a crtica vai se tornando mais convicta, e profunda, concorda o organizador e autor das notas. Ainda se as mulheres pudessem nos governar, seriam certamente melhores que os uniformizados, diz a ltima frase da ltima carta escolhida para o livro.

Leia um trecho do livro:
Rio, 1 de janeiro de 1969
Para Mame1  e naturalmente para os seus comandados de
Paissandu 2002  o novo ano entrou com a luta habitual contra
a cozinha... A biruta autntica, que estava aqui substituindo a
franga, e j queria dar o fora no dia de nossa volta, no apareceu
esta manh e deixou Mame e os seus comandados na
mo, como amostra do que  o problema domstico que, nos
Estados Unidos, j foi superado pela supresso da classe, mas
que, aqui, vai se arrastando, como tudo mais, aos trancos e barrancos,
como essa enxurrada de decretos-leis com que os milicos
e seus asseclas iniciam o novo ano, como sempre acontece
com os novos Estados Novos, inundando o pas de verborragia
(no li nem ouvi a falastrao do milico-mor ontem   noite,
a no ser o ttulo: O ai-5 vem consolidar a Revoluo). So
todos uns patetas que acreditam, talvez com sinceridade, que
esto realmente conduzindo os acontecimentos, quando esto
sendo apenas conduzidos por eles. Nos jogam esses confetes
de decretos-leis to copiosos em palavras que, dificilmente, se
entendem no seu jargo econmico-financeiro que, no fundo,
querem dizer apenas que tudo continua na mesma, embora com
outras e numerosas palavras. Enquanto isso, o pas caminha,
porque no pode deixar de caminhar, como uma canoa levada
rio abaixo pela corrente, com os canoeiros remando desesperadamente
contra a correnteza, com a iluso, ou pensando que
comunicam aos viajantes das canoas, a iluso de que eles  que
esto manobrando as canoas. Pobre gente! Pobres de ns!
Em face disso me penaliza ver Mame desgrenhada, a se estafar
indo l embaixo, onde ainda dorme a biruta, tentar em vo
convenc-la a assar os frangos que ficaram  espera do forno...
E tudo porque Mame no queria deixar passar o 1 de janeiro
de 69 sem reunir, para o almoo, ao menos os trs que esto
aqui. Mame ainda pensa em termos de casa grande ou de
Dona Mariana, com o squito fiel das velhinhas que vinham
de outros tempos, Ang, Bab Emlia ou, ento, os Mans que
representavam ainda, ou j, uma transio para as frangas e
birutas de hoje, que representam o ltimo elo de uma cadeia
em vias de extino completa. Por mim no me incomodo, e com
o meu temperamento de alfinete, que se acomoda facilmente
s situaes novas (consolo-me com a frase de um psicloalceu
go francs que aqui deu conferncias h 30 anos: Lintelligence
cest la capacit de sadapter aux circonstances nouvelles ou
imprevisibles...), mas Mame sofre com isso, pois  da estirpe
dos antes quebrar que torcer, e no se consola de no poder
reunir os pintos que restam prximos sob o seu agasalho.  uma
beleza isso, mas custa suores, sangues e lgrimas, que nem ao
menos ela manifesta e, antes, concentra, prejudicando a sua sade
que, incontestavelmente, foi tima (nunca vi Mame de cama,
seno quando vocs nasciam), mas que vai sendo minada com
esses crescentes aborrecimentos com a cozinha, e mesmo com
a situao domstica em geral, desde que a Isaura nos deixou,
depois de nove anos de presena com uma falta apenas (sic)!
Desde ento tudo desandou e Mame no teve mais sossego. S
imagino agora o dia em que Arminda faltar, caso ela v antes de
ns! Ainda ontem ou anteontem ela disse, l de Petrpolis, que
no estava passando bem da presso.
Mas tudo isso  caf pequeno ao lado do que est ocorrendo
com o Brasil em geral e, mais alm, com o mundo, continuamente
 beira de catstrofes, especialmente nesse barril de
plvora que  o Oriente Mdio e a luta imemorial entre rabes
e judeus. Fica-se realmente na dvida se o sionismo (isto , a
reconstituio de um Estado poltico de Israel, patrocinado pelos
ingleses depois da guerra de 14-18) foi uma medida sbia
ou mesmo justa, ou se foi uma mancada para a paz universal.
Mas como no podemos resolver nada por ns, fiquemos apenas
nas conjecturas e procurando os sinais dos tempos profundos
ou atravs das agitaes da superfcie. Ainda agora leio no J do
B (a vantagem dos jornais com poltica local - e a vantagem l 
que a poltica internacional aparece melhor) de um colaborador
do New York Times mostrando, com exemplos histricos, que
a fora da inrcia  to grande no mundo social como no mundo
fsico. Vou ver se te mando, porque tem uma referncia ao
caso Paulo vi, repetindo Pio ix, como estamos vendo, claramente,
alis. Joo xxiii s ser continuado em 2000 e tantos por algum
futuro Joo ou mesmo Paulo vii ou viii, mas, no momento, a volta
ao silabismo  que domina e poder agravar-se. Como tambm
poder atenuar-se. No h bem que sempre dure nem mal que
nunca acabe! Essa sabedoria popular, de tipo lafontaineano,
tambm no perde nunca sua atualidade. E (no sei por que me
ocorreu isto) ontem, conversando no Jos Olympio com vrias
pessoas, inclusive a Dinah Silveira de Queiroz, tratou-se do
problema Igreja em crise, recuo de Paulo vi etc. A nora do
Jos Olympio (que renovou pedido para que eu me encontrasse
com uma equipe de casais, de que j o Coley, o marido, me
falara) estava bastante irritada ou perplexa com a tal frase de
Paulo vi que tanto escndalo causou pela explorao que O Globo
e outros jornais ultras, que viraram com o esprito de porco
coroniano, to tpico dessa espcie de imprensa da inrcia, e
eu procurei responder com aquela interpretao de que o papa
visava mais aludir s lutas dos catlicos entre si que podem
destruir a Igreja, no no sentido literal da palavra destruir. E falei
que era preciso ler os documentos colocando-os no contexto
literal e circunstancial, e menos no sentido de humor (estou
no momento com essa receita: o mal do mundo e do Brasil, em
particular,  a falta de senso de humor, e o remdio  restaurar
esse esprito esportivo (que  outra modalidade do sense of
humour) tanto no mundo e no Brasil, como em casa, como acabo
de dizer a Mame, quando me trouxe uma limonada deliciosamente
fresca neste dia trrido de estio, sem cigarras no momento,
pois as cigarras tambm fazem sua sesta na hora do sol
e preferem cantar de madrugada ou no crepsculo, to bonito,
to vero, to lrico, que a gente (Mame no, pois as cigarras a
enervam) volta a ser menino com elas e s penso nas arrumaes
de Senador Vergueiro deliciosas quando os exames terminados
eu prelibava os dois meses na Rennia, lendo Shakespeare
(...) ou o folhetim do Jornal do Commercio na varandinha
da casa da Rennia,  beira do rio... Eta ch!
Vamos almoar figos com sorvete, em vez de frangos e feijo e
salada, mas  bem melhor para um dia to quente.
(...)
No terminei o que queria contar, no encontro na Jos Olympio,
que era uma frase da Dinah. Fiquei conversando com um
irmo do Jos Olympio, que estava meio bebido, fazendo umas
declaraes de admirao incondicional  quando, no sei por
que, a Dinah me disse, dirigindo-se aos outros: Este (eu)  um
misto de Buda e Cristo, tendo sensibilidade de Buda e no sei o
qu (no me lembro do que disse) de Cristo...
Era s, mas, como voc gosta de ouvir essas prcieuses
ridicules nas suas cartas, l vai. Da ltima vez que estive l
no Jos Olympio, a prcieuse era a filha do Guimares Rosa.
Ah, o Daniel, o irmo do jo, que cuida das edies, me mostrou
o calendrio de cultura de 1969, do Conselho Nacional de
Cultura, onde lembram, a 17 de junho, os 50 anos do Tristo.
Ento, conversa vai conversa vem, o Daniel me disse por que no
organizava eu uma espcie de antologia de teoria crtica para ser
publicada por eles, creio que independente do outro volume (ficou
de me mandar amanh o ndice de matrias do Vidas bem
vividas). Bem, o Jos, que  o chefe, disse que estudssemos o assunto.
Eu fiquei pensando: ser que voc, nas suas pesquisas, seria
capaz de mais este esforo pelas bodas do Tristo? Eu mesmo tenho
minhas dvidas que ainda haja coisas a pesquisar para uma antologia
crtica, depois do que j foi publicado na Esttica literria
e o crtico, que est esgotado sem dvida e, talvez fosse melhor,
inclusive, reeditar pura e simplesmente. Eu pediria autorizao 
Agir, que j demonstrou no ter interesse algum em reeditar livros
meus de certo vulto, em vez de fazer uma antologia. Ou, ento, tirar
mesmo do Esttica o que for de antologia, ajuntando outros textos
tirados de artigos no publicados e livros!
No sei se estou me explicando com clareza (j no digo a clareza
escrita, pois esta...), mas penso que voc me responderia se
a conversa fosse verbal: J vi tudo.
Pense e me diga o que pensa. At eu poderia auxiliar, relendo
o Esttica e marcando trechos. E voc se encarregaria dos artigos.
Pena que no tenhamos, neste janeiro, uns dias longos de
tte--tte parlatorial para levar avante a tarefa. Mas, mesmo
 distncia, voc me indicaria os artigos possveis para um livro
de umas 150 a 200 pginas, e eu veria o que  possvel, caso tambm
o Jos Olympio confirme o que pode ter sido apenas uma
conversa de boca pra fora de fim de ano!
(...)
Voltando ao nosso almoo de 31 de dezembro (Hamilton, Jos
Carlos, Rubens Porto, Sobral e eu)  o relato que o Sobral
fez dos seus trs dias de priso e, principalmente, do modo como
foi arrastado por trs homenzarres da polcia, porque s assim
iria, era de se gravar. O Sobral se comportou como um leo e um
modelo de bravura pessoal etc. e tal. E o episdio pode mesmo
servir de modelo a todos ns, os mansos (na missa de  noite
a que fui com Mame na Santssima Trindade, o Evangelho que
leram foi o das bem-aventuranas! Que rio de sabedoria eterna!
Que fonte de gua fresca!).
Por falar na homilia sobre a paz. Tudo perfeito. Apenas... na
estratosfera. Como se os preceitos vigorassem para uma faixa
de gravidade lunar ou luntica, e ns estivssemos aqui. Sem
querer esse tipo de homilia nos habitua, e os ouvintes ento,
99% de catolices mdios, veem a vida poltica e a religiosa em
planos totalmente opostos. Mas s isso daria para mais umas
dez pginas, e j estou  no digo cansado  mas com os dedos
duros, salvo seja...
Mas o Sobral passou o almoo se deliciando com as suas
proezas do menino Sobral... E teve mesmo, a certa altura, esta
fraqueza: Faltava isso para minha biografia... Como os mais
valentes so fracos... Em nvel muito inferior lembra uma frase
que o velho livreiro Francisco Alves contou a tio Afrnio, que
teria ouvido do Gilberto Amado, quando este lhe perguntou, de
volta de uma viagem  Europa, depois do julgamento de seu crime,
se tinha vendido muitos dos seus livros. E  resposta negativa
do velho livreiro, o Gilberto teria respondido: Nem para isso
serviu o meu crime. A frase talvez seja apcrifa, pois tio Afrnio
tinha raiva do Gilberto, mas... quem sabe.
Bem, por hoje  tudo. Que Deus te abenoe durante todo este
1969, e nos d fora para nunca falharmos  Sua Graa! Aleluia!


4. EM CARTAZ- CINEMA - MITOS SOBRE RODAS
por Ivan Claudio

Quando Niki Lauda, favorito do Grande Prmio da Alemanha em 1976, bateu sua Ferrari contra um muro, sua morte era certa. O piloto austraco passou longos minutos preso a ferragens em chamas  no hospital, um padre foi chamado para dar a extrema uno ao corredor. Duas corridas depois, ele voltava s pistas para tentar tirar a vantagem de James Hunt. Em vez de se ater na superao heroica de Lauda, o filme Rush  no Limite da Emoo explora a rivalidade e, mais ainda, o contraste da personalidade dos pilotos. Lauda, campeo, calculava cada movimento em pista e tinha uma vida pessoal discreta. J Hunt, mulherengo quase exibicionista vivido por Chris Hemsworth, abusava do instinto e dos reflexos, mesmo correndo no dia seguinte de bebedeiras famosas. Daniel Brhl comove na pele de Niki Lauda recriado pelo diretor Ron Howard. Mas nada envolve ou seduz tanto quanto o jogo de cmeras, que reproduz o ritmo dos autdromos. Delicioso at para quem no gosta de velocidade, carro ou disputas entre meninos crescidos.

+5 filmes sobre corrida
SENNA
Dirigido pelo ingls Asif Kapadia, Senna fala da vida e da carreira do piloto brasileiro que morreu em mola, durante o Grande Prmio de San Marino de 1994

SE MEU FUSCA FALASSE
 Herbie era um Volkswagen que tinha vontade prpria, andava sozinho e tirava o dono de encrencas

DIAS DE TROVO 
 O filme de Tony Scott, irmo mais novo de Ridley Scott, traz o casal Tom Cruise e Nicole Kidman no papel de piloto e sua mdica

SPEED RACER
 Superproduo dos irmos Larry e Andy Wachowski baseado em desenho animado homnimo

TURBO
 Caracol de jardim ganha superpoderes e consegue vencer os outros pilotos e seus carros em sua estreia na Frmula Indy


5. EM CARTAZ  LIVROS - AO ENTRE AMIGOS
por Ivan Claudio

As apresentaes de alguns escritores podem at ser dispensveis. Mas valem muito a pena se feitas por amigos prximos e grandes conhecedores da obra, como foram (e so) Affonso Romano de SantAnna e Marina Colasanti de Clarice Lispector. Com Clarice, que chega s livrarias,  uma edio afetiva de textos publicados pelos escritores sobre a autora e de uma longa entrevista concedida por ela um ano antes de sua morte, em 1976.


6. EM CARTAZ  DOCUMENTRIO - AS GUERRAS DE XICO STOCKINGER
por Ivan Claudio
O austraco Franz Alexander Stockinger imigrou para o Brasil depois da Primeira Guerra Mundial com um sonho embaixo do brao: ser aviador. Mas estrangeiro, no conseguiu seguir a carreira militar. Virou escultor e passou a assinar Xico Stockinger, nome do filme de estreia de Frederico Medina, que entra em cartaz ao mesmo tempo no Rio, em So Paulo e em Londres. A mudana de rumo, mostra a pelcula, colocou o artista aprendiz de Bruno Giorgi na trincheira antimilitar. Algumas de suas peas mais conhecidas representam figuras quixotescas, guerreiros sonhadores que ele criava em protesto  ditadura militar no Brasil. As entrevistas com o escultor morto em 2009 so acompanhadas de depoimentos do crtico Paulo Herkenhoff e do curador Jos Francisco Alves.  


7. EM CARTAZ  MSICA - PARA SEMPRE GUIOMAR
por Ivan Claudio

A Semana Guiomar Novaes, que segue at o domingo 22, foi criada h 36 edies a fim de preservar a memria da pianista. Hoje, o evento leva pequenas multides a So Joo da Boa Vista (interior paulista) para conferir shows de grandes intrpretes da msica brasileira  como o trio formado por Nelson Ayres, Mnica Salmaso e Teco Cardoso, uma das atraes da edio, ao lado de Luiza Possi  apresentaes de dana, teatro e uma programao especial para crianas. A seo infantil desta edio traz o espetculo Operilda na Orquestra Amaznica, de Andra Bassit, que mostra de forma ldica a influncia indgena e africana na criao de grandes compositores eruditos.


8. EM CARTAZ  LIVROS 2 - SE BEBER, NO PARE
por Ivan Claudio

Francis Scott Key Fitzgerald adorava beber e escrever sobre bebida, quando no bbado. Pileques  Drinques e Outras Bebedeiras, que sai pela Companhia das Letras, rene textos que no so exatamente odes aos copos e seus contedos, nem propriamente atestados do estrago efetivo que o alcoolismo fez na vida do autor de O Grande Gatsby. Mas tem um pouco dos dois lados dessa moeda em passagens irresistveis em que o amor destrutivo pelo lcool carrega o leitor para os balces mais cheios de histrias dos anos 1920, como num jazz ritmado pelo inescapvel som de garrafas e gelo.  


9. EM CARTAZ  AGENDA - ARTHUR LESCHER/TRIBOS/FESTIVAL PAULISTA DE CIRCO
Conhea os destaques da semana
por Ivan Claudio

ARTHUR LESCHER
 (Na Galeria Nara Roesler, em So Paulo)
Em cartaz at o domingo 22, a mostra rene a produo recente do artista e dez obras inditas

TRIBOS
 (No Tuca, em So Paulo)
Antonio Fagundes encabea o elenco da comdia em que contracena com o filho, Bruno Fagundes. Dividem o palco ainda Arieta Correa, Guilherme Magon, Mara Dvorek e Eliete Cigaarini

FESTIVAL PAULISTA DE CIRCO
Sexta edio do evento rene em Piracicaba (SP) nove espetculos selecionados pelo palhao veterano e curador Hugo Possolo


10. ARTES VISUAIS - ARTE PARA TODOS
Bienal de So Paulo comemora 60 anos com megaexposio, proporcional ao tamanho de sua importncia para a arte e a cultura brasileira
por Paula Alzugaray

30 x Bienal  Transformaes na Arte Brasileira da 1  30 edio/ Fundao Bienal de So Paulo, SP/ de 21/9 a 8/12

Existem hoje centenas de bienais de arte em todo o mundo. A cada ano, surgem mais e, entre as mais novas, certamente est a Bienal de Arte da Bahia, prevista para ser inaugurada em 2014, em Salvador. Mas quando a Bienal de So Paulo surgiu, em 1951, s existia a Bienal de Veneza (que havia sido criada em 1895, baseada no modelo das feiras internacionais). A I Bienal refletia a vontade de So Paulo em se transformar em um centro internacional para a arte. Conseguiu. H 30 edies, o evento traz arte de ponta, promovendo a geraes e geraes de brasileiros o intercmbio cultural com o cenrio artstico mundial. A histria das bienais , portanto, a histria da arte contempornea brasileira, que ser contada na exposio 30 x Bienal.

EVENTO POP - Desde 1951, a Bienal projeta a arte para alm de um crculo de iniciados

Mais de cinco mil artistas nacionais expuseram na Bienal de So Paulo ao longo de seus 62 anos de existncia. E 111 foram selecionados pelo curador Paulo Venncio Filho para a exposio comemorativa. A relao entre a histria da arte brasileira e a trajetria da bienal  o elemento determinante na escolha dos artistas e obras, afirma o curador, que optou por contar essa histria de modo no linear, propondo uma orientao no cronolgica e flexvel.

A fim de posicionar a Bienal como elemento estruturante da arte brasileira da segunda metade do sculo 20, a curadoria identificou, como eixos centrais de sua narrativa, alguns episdios marcantes, como a abstrao geomtrica, o concretismo, a arte pop e a arte conceitual. A histria do construtivismo brasileiro, por exemplo, comea com Maria Leontina e Milton Dacosta, em 1951. Procede com Geraldo de Barros, em 1953; segue com os Metaesquemas de Oiticica, em 1958; engrena nos Bichos de Lygia Clark, em 1961; chega ao pop com Raymundo Colares, em 1970; reflete-se na escultura de Amilcar de Castro, em 1999; e vira o sculo na instalao A Uma Certa Distncia, de Rivane Neuenschwander.

PIONEIRO - "Aparelho Cinecromtico", de Palatnik,  precursor da arte digital

Outros grandes captulos esto l: a abstrao informal de Tomie Ohtake; a srie Homenagem a Fontana, de Nelson Leirner; pinturas de Nuno Ramos, Fabio Miguez, Rodrigo Andrade, Paulo Monteiro e Carlito Carvalhosa que formaram a grande tela na 18 Bienal; e trabalhos de Lenora de Barros e Adriana Varejo para a celebrada Bienal da Antropofagia (1998), marco definitivo para a consagrao internacional da arte contempornea brasileira.

GERAO - 80 "Pulmo", de 1987, um dos trabalhos que lanaram Jac Leirner


11. ARTES VISUAIS  ROTEIROS - BEUYS E NIEMEYER EM DILOGO ESPACIAL
Joseph Beuys - Res-pblica: Conclamao para uma alternativa global/ MAC Niteri, RJ/ at 1/12 
por Paula Alzugaray

Quando o mundo debate perplexo as transformaes ambientais e a busca de novos sentidos para futuro da sociedade, voltar a Beuys  elucidativo. Crtico mordaz do capitalismo e dos caprichos e esquizofrenia desse sistema econmico que julgou exploratrio, o artista alemo Joseph Beuys (1921-1986) foi um militante da ideia de que a arte pode mudar o mundo. Sua escolha para comemorar os 17 anos do Museu de Arte Contempornea de Niteri, portanto, aponta para a relevncia e atualidade de suas ideias polticas, ambientais e humanitrias.

PARA MUDAR O MUNDO - Beuys integrou arte, vida e poltica

A exposio Joseph Beuys  Res-pblica: Conclamao para uma alternativa global est dividida nos cinco tpicos que concentraram sua ao poltica e artstica: Criatividade individual e liberdade; Escultura social  ensino e educao; Meio ambiente e energia; Xamanismo e espiritualismo material e Democracia direta  poltica. Dispostos no espao expositivo circular do edifcio projetado por Oscar Niemeyer, esses eixos se autoinfluenciam continuamente, dando a exata dimenso da interpenetrao dessas reas da vida.

Quando o mundo ainda no havia descoberto o furo na camada de oznio e ecologia no era um tpico da agenda de debate global, Beuys j afirmava que s seria possvel salvar o mundo atravs das foras da natureza. Assim, nos anos 1970, plantar rvores e participar da origem do Partido Verde na Alemanha fizeram parte de sua estratgia artstica.

No segmento atribudo ao meio ambiente, esto situadas as obras feitas com mel, cobre, feltro, gordura e cera, elementos que indicam produo de energia, calor e movimento, segundo o artista, qualidades necessrias para a restaurao da vida humana e dos valores da sociedade.

O espao em que as 100 obras de Beuys est inserido  determinante: a importncia que o artista atribua  natureza e  vida social tem ressonncia direta no valor que Oscar Niemeyer deu  potencia da paisagem natural, construindo o museu como um frum de debates e como um observatrio da grandeza da paisagem natural do Rio de Janeiro. O dilogo espacial Beuys  Niemeyer, portanto,  engrandecedor, jogando luz  dimenso poltica da arquitetura de um e  arte do outro.

